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Bebê em crise

Domingo Cisco fez três meses (tentamos comemorar com o primeiro acampamento dele, mas os mosquitos impediram nossa aventura. Mais detalhes em outro momento). E eu e Hugo estamos nos aventurando numa nova descoberta: a tal crise dos três meses.

Que, tcharam, nem sabia que existia! Sabia dos saltos de desenvolvimento e picos de crescimento, mas crise? Bebê com crise? Olha, existe. Francisco é um carrossel de emoções. Solta gargalhadas deliciosas do nada, emendadas em choros de uma hora sem parar, com direito a golfadas tamanho esforço. As lágrimas caem na mesma frequência que a canjica sem dentes é exibida.

E a luta pra dormir? Pra um bebê que dormia pelo menos 6h durante o dia, hoje ele dormiu quinze minutos. E bebê que não dorme é um bebê rabugento. E no caso do meu bebê vomitinho, mais leite talhado em todas as superfícies da casa. E ele não quer colo, mas também não quer sling, não quer cadeirinha, não quer berço, não quer tapetinho, não quer sofá e nem cama da mamis. Nem peito, nem brincadeira, nem chocalho, nem bico, nem cosquinha, nem banho. Ele quer tentar ficar de pé. Aguenta essa de um bebê semi-molinho.

Desejem força pra mim, amigs. Não está sendo fácil.

breves updates

  • Francisco agora: gargalha, vira de lado sozinho, quer ficar sentado o tempo todo, bate altos papos comigo e com o papis com seus acá e agu. Passou da fralda P pra M e tá usando roupas de 6/9 meses já. Curte ver TV, fica hipnotizado, e quase todos os dias passo a 1a lição do Muzzy pra ele (vai que né, comigo funcionou). É um sarro esse molequinho.
  • A rotina que criamos deixou bem claro os horários de mamar do dia, o que me deixa confortável pra, se precisar, sair um pouco de perto dele sem medo que ele abra aquele berreiro que eu só posso sossegar com teta. Com isso, tô ensaiando voltar a correr. Já achei meus tênis que tinha perdido no último Volta à Ilha. Sempre tem o primeiro passo, né.

Francisco diz: “cheguei estou no paraíso, que abundância meu irmão”

Quando você tá grávida descobre como nosso corpo é uma máquina incrível. A habilidade de criar uma pessoa nova do zero e tudo que isso implica é fenomenal. No meu caso o que mais me impressionou foi meu cérebro.

A partir das 36 semanas de gestação você pode ter o que se chama de falso trabalho de parto. É um treino oficial pro momento de verdade: você sente as contrações e elas podem ser bem fortes, mas não são ritmadas e um bom banho ou ducha relaxante vai fazê-las irem embora. Também existem os pródromos, que é tipo o kickstart pro negócio de verdade, e que pode ter sintomas ou não.

No dia 22 de dezembro de 2014, as 2 da manhã, eu acordei do nada. Pela 1a vez na gravidez, que nesse dia completava 39 semanas e 3 dias. Parecia que eu tava usando a cinta da feiticeira, minha barriga recebia choques do topo até o pé.
Eu sabia que era o momento de verdade. Definitivamente não era falso. Já vinha sentindo as Braxton-Hicks há algumas semanas, mas elas não eram tão intensas assim.

Baixei um app pra contar as contrações: as safadas tavam vindo ritmadas, em 5/4/3 minutos. E fortes, mas viáveis. Me tocava o tempo todo pra ver se a bolsa não tinha rompido, e necas. Resolvi acordar o Hugo, que logo me colocou no banho. “Olha, vou pro banho, mas acho que é real, hein”.

Eram 3:30 da manhã. Nada das contrações passarem ou diminuírem, mas eu tava com sono. Dormimos. Digo, fechei os olhos. Tava muito ansiosa, a dor era totalmente suportável. Eram 6h da manhã quando resolvi tomar outro banho pra ver se passava um pouco da dor nas costas que começou a incomodar e, como já era manhã, ligamos pro grupo de enfermeiras que nos auxiliariam no parto. O Hanami é uma equipe de enfermeiras que trabalha com obstetrícia e parto humanizado aqui em Florianópolis. Elas são incríveis e sem o apoio da Leti, Ju e Cecília desde o início eu e o Hugo não estaríamos tão sossegados com tudo até agora.

Logo a Leti chegou, fez o exame de toque. Estava com 3cm de dilatação, bolsa intacta, contrações ritmadas. É de verdade. Ligamos para o obstetra, que queria que eu fosse logo pra maternidade. Mas gente, sou teimosa. Óbvio que não fomos.

Lembra que falei que o que mais me impressionou na gravidez foi minha cabeça? Então, é porque a partir desse momento do trabalho de parto, eu não lembro de mais nada. Acho que meu cérebro percebeu o tamanho da dor que viria e desligou. Hoje não lembro mais exatamente como era a dor da contração, sei que obviamente doía muito, irradiava pras costas e minha única posição confortável era deitada na cama de barriga pra baixo em cima de um travesseiro. Tipo quando você tá com gases e precisa soltar, sabe? E que eu não conseguia me mexer porque parecia que eu ia rasgar ao meio.

Tem uma tática pra corridas de longa distância, pra você enganar-se e aguentar até o final, que você divide mentalmente o percurso inteiro em pedaços menores. Ao invés de pensar nos 21km que você tem pela frente, pensa em blocos de 3km ou 5km. E vai vencendo etapa a etapa. Pensei assim com as contrações: cada uma que passava era uma a menos que faltava. Ficava repetindo mentalmente “aceita que dói menos aceita que dói menos aceita que dói menos” tantas vezes que acho que isso acabou desligando meus pensamentos.

Alguns highlights (relatados pelo Hugo e pela Leti, já que eu não me lembro de nada):

  • Tentaram ativar meu trabalho de parto fazendo com que eu subisse e descesse as escadas do prédio. Desci até o 2o andar (moro no 10o) e comecei a ter contrações fortes ao subir de volta. Tão fortes que me acocorei no elevador e aparentemente me recusei a sair de lá.
  • Enquanto estive em casa, eu dormi. Às 13h eu convoquei – não pedi, convoquei – o Hugo pra que fôssemos pra maternidade porque senti que tava chegando. Ao chegar lá a internação foi um pouco demorada, o que nos fez aguardar por um tempo na recepção, ao lado da sala de parto. Minha mãe contou que a ocupante de lá berrava muito que “ia morrer”, e ela ficou com medo que eu escutasse e me impressionasse. Mamis, não sabia nem meu nome mais, quanto mais ouvir a moça urrando.
  • Essa parte eu lembro: o obstetra veio me examinar as 15h, e pedi que eu escolhesse um número entre 1 e 9. Soltei um (grossíssimo) “ai sei lá, 7″. E ele “errou, 9. você tá com 9cm de dilatação, vou preparar a sala de parto”.
  • Também lembro: queria muito fazer xixi. Tanto que as contrações não doíam mais nas costas ou barriga que fosse, doíam na bexiga. Mas não saía nada, por mais que eu tentasse. Numa das N tentativas de fazer xixi, fui sozinha ao banheiro. Hugo me falou depois que ele ficou P da vida pois pensou que me tranquei no banheiro pra ter o bebê sem ninguém junto, quando na real eu tenho certeza que só queria privacidade (sou MUITO chata com xixi). Também falou que bati altos papos com uma enfermeira sobre a minha bexiga tímida.
  • Entrando na sala de parto, lembro da mãe me falando “quando tu sair, já serás uma mami também!”. Bonitinha.
  • Na sala de parto, já quase as 16h, eu ainda não tinha feito xixi. Hugo e dr Fernando decidiram que seria melhor que uma sonda fosse passada pela uretra, pois a cabeça do Cisco tava impedindo que meu xixi saísse (êta moleque) e com a bexiga cheia daquele jeito, não sairia nem Cisco, nem xixi. Ao perguntarem o que eu achava pelo jeito eu respondi “tanto faz”. Eu não me lembro de absolutamente nada disso, Hugo falou que eu fiz muito, muito, muito xixi.

A bexiga vazia foi o gatilho, pois logo Cisco começou a coroar. Tudo que eu li sobre isso era verdade: as contrações já não doíam mais. Mas olha gente amiga, eu tava morta. Apesar de ter dormido o trabalho de parto praticamente inteiro, todo o processo tinha demandado mais do meu corpo que qualquer meia maratona tenha tomado. A parte boa foi que meu cérebro voltou a ativa e aqui eu lembro de tudo.

A contração nada mais é do que o próprio útero empurrando, então Leti me ensinou a empurrar somente quando a contração chegasse no pé da barriga. Entenda: a contração começa bem em cima, onde normalmente fica o estômago, e vai descendo até o pé da barriga como uma onda. Eu empurrando nesse momento pouparia energia, pois já estaria aproveitando a força que meu corpo tava fazendo sozinho.

Sentei no banquinho de cócoras apoiada na banheira, com o Hugo me apoiando por trás.

Essa sou eu com cara de parto.

Essa sou eu com cara de parto.

A cada contração a Leti pedia “vamos lá! Faz força de cocô!”. E a cada intervalo, eu tentava levantar e rebolar pra que a cabeça encaixasse bem certinho – na verdade, o Hugo e a Leti levantaram muito mais que eu. Eu só ria dos dois. Tava tão dopada de dor/ocitocina que ria feito boba.

Foram 54min de empurra empurra. Tenha em mente que, até aqui, minha bolsa ainda não havia estourado. Dr Fernando chegou na sala, avaliou a situação e colocou vários panos embaixo de mim. Leti pegou na minha mão e falou “Linda, na próxima contração, teu bebê já vai chegar. Força, tá no fim!”, e senti o Hugo me abraçando muito forte.
No último empurrão a bolsa rompeu, o que fez com que o Cisco viesse num jato. Dr Fernando o pegou no vôo e o colocou direto no meu colo.

Beijei as gosminhs mesmo nem ligo

Beijei as gosminhas mesmo nem ligo

Eu não pensava. Só sentia. Foi sublime. A onda de ocitocina que te invade é descomunal – só de lembrar agora, dois meses depois, fico arrepiada. Ali naquele momento eu só amava, amava tudo e a todos. Especialmente o Cisco e o Hugo, não existia mais ninguém.
E gente, deixa eu contar como essa sensação é louca. Ter filhos, família, era uma coisa que eu e o Hugo gostaríamos no futuro. Mas como quem nos conhece sabe, foi tudo de repente, da maneira mais intensa possível e obviamente não planejada. Sempre falamos um pro outro que o Cisco é a representação desse nosso amor (hihihi <3), era pra ser nós dois e agora. No momento que o Cisco chegou, não foi ele que nasceu sozinho, não foi assim tão mecânico. Nasceu um pai, nasceu uma mãe, nasceu uma família, concretizou-se um projetinho. Nada mais de antes importava. A partir dali, deixamos de ser eu e ele e viramos nós três.

oi mamain

oi mamain

Toda a equipe que nos atendeu foi mais que respeitosa. Francisco ficou no meu colo por 40 minutos enquanto a placenta não saiu, ainda com o cordão intacto. Logo já mamou por alguns minutos e dormiu um pouco (meu filho né). Então o Hugo clampeou o cordão e eu o liberei pros procedimentos da pediatra – Apgar 9/9, 3.303kg e 47.5cm de muito choro agudo e amor.

não me esmaga!

Sem laceração alguma (portanto sem suturas nem pontos nem nada), sem indução e sem analgesia, com 10h de trabalho de parto e um bebê lindíssimo que já nasceu mamando. Nem nos meus planos imaginava um parto tão ideal.

Ainda ficamos nessa onda da ocitocina por umas boas duas semanas. Ficamos e não fiquei, pois o Hugo foi tão companheiro, teve tão do meu lado que tudo que eu senti, ele sentia também, tava totalmente absorto no momento. Ele ficou 5 semanas em casa, foi a babymoon ideal: criamos nossa nova dinâmica a três e tivemos bastante tempo pra aperfeiçoá-la juntos. Tenho certeza que isso foi crucial pra não sentirmos o peso tão grande de ter um recém nascido em casa (salvo os casos óbvios de mudança, tipo menos horas de sono).

Foi assim que o Cisco chegou. Cheguei a conclusão que foi uma gama de fatores que me ajudaram a ter esse parto tão bacana – o apoio e participação incondicional do Hugo desde o 1o dia que decidimos pelo parto natural, as meninas do Hanami, nosso obstetra dr. Fernando Pupin, a equipe da sala de parto do Hospital Ilha. E também toda a preparação que nós três tivemos desde que conhecemos o parto natural, aos 4 meses de gravidez: yoga, caminhada, pilates, dieta, apoio moral, tudo. Minha cabeça tava feita desde o início, acabou influenciando o Cisco pra nos ajudar também.

Agora, vamos ver como será o do bebê nmro 2 😉

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Esse relato também foi publicado no site do Hanami <3